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Autismo em mulheres: compreender, reconhecer e apoiar com base na ciência



O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento presente em pessoas de todos os géneros. No entanto, durante décadas, o conhecimento científico, os critérios diagnósticos e as práticas clínicas foram maioritariamente construídos a partir de estudos com rapazes e homens. Como consequência, muitas mulheres autistas permaneceram — e continuam — invisíveis, subdiagnosticadas ou diagnosticadas tardiamente.

Falar de autismo em mulheres exige uma abordagem informada, sensível e alinhada com a neurodiversidade, reconhecendo não só as dificuldades enfrentadas, mas também as estratégias adaptativas desenvolvidas ao longo da vida. É neste enquadramento que a Análise Comportamental Aplicada (ABA), quando praticada de forma ética e individualizada, pode oferecer contributos relevantes.


Porque é que o autismo em mulheres é menos reconhecido?


As estatísticas mostram consistentemente mais diagnósticos de autismo em homens do que em mulheres. No entanto, a investigação atual sugere que esta diferença reflete, em grande parte, viés de diagnóstico e não uma menor prevalência real.


Alguns fatores que contribuem para o subdiagnóstico em mulheres incluem:

  • Critérios diagnósticos historicamente baseados em perfis masculinos;

  • Expectativas sociais diferentes para raparigas e mulheres, sobretudo ao nível do comportamento social e emocional;

  • Maior pressão para cumprir normas sociais, levando a estratégias compensatórias;

  • Apresentações clínicas mais subtis ou internalizadas.


Características frequentemente observadas em mulheres autistas


Embora não exista um “perfil feminino” único de autismo, muitas mulheres autistas relatam experiências comuns, tais como:


  • Elevada capacidade de camuflagem social (masking), imitando comportamentos sociais esperados;

  • Maior esforço consciente para manter conversas, contacto ocular ou expressões emocionais;

  • Interesses intensos que podem ser socialmente mais aceitáveis e, por isso, menos sinalizados;

  • Dificuldades marcadas na autorregulação emocional, ansiedade e exaustão social;

  • Histórias de burnout, depressão ou ansiedade antes do diagnóstico de autismo.

Estas estratégias podem facilitar a adaptação aparente, mas têm frequentemente um custo elevado para a saúde mental e o bem-estar.


O impacto do diagnóstico tardio


Muitas mulheres autistas recebem diagnóstico apenas na adolescência tardia ou na idade adulta — ou nunca o recebem. Este atraso pode traduzir-se em:


  • Anos de incompreensão pessoal e sentimento de inadequação;

  • Diagnósticos alternativos ou concomitantes (como ansiedade ou depressão) sem reconhecimento do autismo subjacente;

  • Falta de acesso a apoios adequados em contexto escolar, académico ou profissional.

Por outro lado, quando o diagnóstico ocorre, muitas mulheres descrevem-no como um momento de validação, que permite reorganizar a sua narrativa pessoal com mais compaixão e clareza.


O contributo da Análise Comportamental Aplicada (ABA)


A ABA é a ciência que estuda a relação entre o comportamento e o ambiente, com o objetivo de promover mudanças significativas e melhorar a qualidade de vida. Numa perspetiva contemporânea e informada pela neurodiversidade, a ABA não procura suprimir a identidade autista, mas reduzir barreiras, apoiar escolhas e aumentar autonomia.


Como a ABA pode apoiar mulheres autistas


1. Avaliação individualizada e funcional

A ABA centra-se na compreensão do comportamento no contexto específico da pessoa. Isto é particularmente importante em mulheres autistas, cujas dificuldades podem ser menos visíveis, mas profundamente impactantes.


2. Redução da necessidade de camuflagem

Uma intervenção ética ajuda a pessoa a identificar quando está a mascarar comportamentos por pressão social e a desenvolver alternativas que respeitem o seu bem-estar, em vez de reforçar a conformidade forçada.


3. Autorregulação emocional e gestão de energia

Estratégias baseadas em análise funcional podem apoiar a identificação de sinais precoces de sobrecarga sensorial ou emocional, promovendo ajustes ambientais e rotinas mais sustentáveis.


4. Desenvolvimento de competências escolhidas pela própria pessoa

Na ABA moderna, os objetivos são definidos em colaboração com a pessoa, respeitando os seus valores, prioridades e identidade. O foco está em competências funcionais que façam sentido para a sua vida diária.


5. Apoio em contextos académicos e profissionais

A ABA pode ajudar a analisar exigências específicas do ambiente (por exemplo, reuniões, trabalho em grupo, avaliações sociais) e a criar estratégias práticas e personalizadas.


Uma abordagem ética e alinhada com a neurodiversidade


É fundamental sublinhar que nem toda a intervenção é benéfica por definição. Uma prática responsável de ABA em autismo — especialmente em mulheres — deve ser:


  • Colaborativa e centrada na pessoa;

  • Transparente nos objetivos e métodos;

  • Sensível ao impacto do género, da cultura e da história individual;

  • Orientada para o bem-estar, e não apenas para a aparência externa do comportamento.


Considerações finais


Reconhecer o autismo em mulheres é um passo essencial para uma prática clínica, educativa e social mais justa. Tornar visível o que durante muito tempo foi ignorado permite não só diagnósticos mais precisos, mas também apoios mais eficazes e humanos.

A Análise Comportamental Aplicada, quando integrada numa perspetiva de neurodiversidade e ética, pode ser uma ferramenta valiosa para apoiar mulheres autistas a viverem de forma mais autêntica, autónoma e alinhada com quem são — não apesar do autismo, mas com ele.

 
 
 

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